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Uruguai
Crescendo, Uruguai já atrai de volta os seus emigrados

América do Sul: País vê em 2009, pela primeira vez em quatro décadas, mais gente voltando do que saindo
 
A cozinheira uruguaia Sonia Quinteros resolveu deixar tudo para trás em 2002, em meio à maior crise econômica de seu país de origem, quando o PIB caiu mais de 10%. Cruzou o rio da Prata e se instalou em Buenos Aires, que também estava em plena convulsão social, "mas tinha mais trabalho do que em Montevidéu". Aos 55 anos e sem família na capital argentina, ela se prepara para fazer o caminho de volta. Nos momentos de folga, dedica boa parte do tempo a organizar o retorno e sondar com suas amigas no Uruguai como anda o mercado. "Dizem que as coisas melhoraram por lá."
 
Em breve, Sonia deve reforçar as estatísticas que revelam uma mudança histórica: em 2009, pela primeira vez em quatro décadas, o número de uruguaios residentes no exterior que regressam ao país deverá ser maior do que as novas levas de emigrantes. O maior termômetro do fluxo migratório é o movimento no aeroporto internacional de Carrasco, em Montevidéu, a única porta de entrada e saída do país por via aérea. Até setembro, estatísticas preliminares apontavam em torno de 1,3 mil mais entradas do que saídas de uruguaios. Para quem tem cerca de 15% de seus cidadãos no exterior, não é um dado menor.
 
Na avaliação do governo uruguaio, houve uma combinação de três fatores. A recessão global atingiu em cheio setores como o turismo e a construção civil, altamente empregadores de mão de obra latino-americana em países como Estados Unidos e Espanha, os dois destinos preferidos dos emigrantes recentes.
 
Mas também pesam a forte recuperação da economia a partir de 2003 - o PIB acumula expansão de quase 40% desde então - e uma nova legislação nacional com benefícios tributários para os repatriados. Neste ano, o Uruguai foi um dos lugares da região que conseguiram driblar a recessão e manter o crescimento. "Tudo isso criou um ambiente favorável para o retorno de muitos compatriotas, principalmente daqueles que emigraram na crise de 2002 e ainda não haviam criado raízes suficientes no país de destino", afirmou ao Valor o embaixador Carlos Flanagan, diretor do departamento de assuntos consulares do Ministério das Relações Exteriores.
 
Flanagan estima em 500 mil a 550 mil o número de emigrantes. "Deixamos de ser um país receptor nos anos 60 e este será o primeiro ano, em quatro décadas, com saldo migratório positivo. Mas ainda é cedo para dizer se o que estamos vendo é uma reversão de tendências ou apenas uma curva circunstancial."
 
Em agosto do ano passado, o governo da coalizão esquerdista Frente Ampla modernizou a Lei Geral de Imigração que vigorava desde 1906 e aproveitou para incluir um artigo com incentivos tributários à repatriação de uruguaios. A nova legislação permitiu a todos os cidadãos que moram há mais de dois no exterior levar ao Uruguai, sem a incidência de tarifas de importação, seus pertences pessoais (mobília, equipamentos eletrônicos e ferramentas de trabalho) e um automóvel. Desde então, até a semana passada, o departamento chefiado por Flanagan recebeu 479 trâmites. "Chega praticamente um pedido por dia. Como cada família pode trazer um carro, pode-se dizer que são 479 famílias inteiras de volta ao país", afirma o embaixador.
 
O Uruguai viveu duas fases distintas de corrente emigratória. A primeira, inaugurada no fim dos anos 60, intensificou-se no início da década seguinte com a ditadura militar (1973-1984). Por razões econômicas, foi em direção aos Estados Unidos e a outros países ricos, como Canadá e Austrália, mas também para Argentina e Brasil. Em seguida, por razões políticas, os asilados se instalaram principalmente na América Latina. Argentina - cujo regime militar começou somente três anos depois -, México e Venezuela eram os destinos mais comuns.
 
Na segunda onda migratória, vivida já nesta década, Estados Unidos e Espanha receberam quase 70% dos uruguaios que se foram. Em 2002, no pico da crise, 29 mil pessoas deixaram o país. A historiadora e demógrafa Adela Pellegrino, da Universidada República, chama a atenção para um fato curioso. Naquele ano, o Uruguai chegou a ter crescimento populacional negativo: os nascimentos não foram suficientes para repor o número de mortes e de emigrações.
 
Pellegrino identificou um perfil dos uruguaios que saíram do país entre 2000 e 2006: 55% eram jovens de 20 a 29 anos, predominantemente homens, e cerca de 53% tinham pelo menos completado o ensino médio ou técnico ao emigrar - dez pontos percentuais a mais do que a população uruguaia como um todo. "É uma emigração que se diferencia daquela de países centro-americanos, por exemplo, em que há proporção muito maior de famílias completas."
 
É gente como Rodrigo Silva, 30 anos, recém-chegado de uma temporada de quatro anos em Vigo, na Espanha. Com ensino médio completo, mas sem estudos universitários, ele trabalhou em bares, restaurantes, no Carrefour e "onde estivessem pagando melhor". "Não fui só por razões econômicas, mas também pela vontade de conhecer o mundo." Há dois meses, com a permissão de trabalho vencida e vendo os efeitos da crise na Espanha, pegou o avião de volta.
 
"A crise lá foi forte. Meus tios têm uma confeitaria em Vigo e as vendas caíram 40%. Três primos que trabalham na fábrica da Citroen tiveram seus salários cortados", relata Rodrigo. Após matar a saudade dos pais e amigos, começou a procurar trabalho na semana passada. Está otimista. "Percebi uma mudança no Uruguai. O crescimento econômico aqui é real, eu nunca tinha visto as pessoas consumindo tanto", comenta. Não descarta, porém, emigrar novamente: "Ainda quero morar no Brasil".
 
Daniel Rittner, de Montevidéu e Buenos Aires
Valor Econômico, 21.12.2009

 
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