A valorização do universo feminino em detrimento do masculino parece inegável. Buscando suprir, em certa medida, essa discrepância, Marcelo Mininno escreveu e dirigiu Lote 77, montagem argentina em cartaz em Buenos Aires desde março de 2008 e apresentada no 10º Festival Internacional de Teatro, Palco & Rua, de Belo Horizonte (FIT-BH). Poderá ser vista, no início de setembro, na primeira edição do Mirada, festival de teatro de Santos.
– Ao longo do tempo, a sociedade mudou, mas os homens continuam sofrendo pressão para fazer jus ao comportamento que se espera deles – observa Mininno, que também surge em cena, em substituição a outro ator que não pode vir ao Brasil. – Ainda assistimos à perpetuação de algumas regras familiares arraigadas, violentas para os homens.
Em Lote 77, a reflexão sobre a identidade masculina vem à tona através de três personagens envolvidos em tarefas voltadas para a criação, seleção e classificação do gado bovino em lotes de venda.
Vulnerabilidade
– A rigidez em relação à figura masculina está mais presente no interior do que nas grandes cidades – observa Mininno, que, diferentemente dos atores (Andrés D'Adamo e Rodrigo González Garillo, ambos de Buenos Aires) com quem contracena, nasceu num povoado rural.
A montagem não surgiu na sala fechada de ensaios. A equipe visitou mercados de animais e frigoríficos de cidades do interior. Apesar da pesquisa, Marcelo Mininno escreveu o texto a partir de um processo fundado em improvisações dos atores.
– Todos os exercícios que fizemos visavam a fazer com que os atores expusessem sua própria vulnerabilidade. É um texto feito de pequenas tensões, profundas e íntimas – revela.
Mininno optou por não incluir trilha sonora – ou, mais adequado seria dizer, a trilha não é composta por música, e sim por uma partitura de ruídos sonoros.
– Queria um espaço cru, quase como carne viva – acrescenta Minnino, acerca de um trabalho que aproxima o espectador brasileiro do bom teatro argentino, representado por nomes como Daniel Veronese e companhias como a Timbre 4, conhecida pela encenação de La omisión de la família Coleman, já apresentada por aqui.
Agora, Mininno planeja manter a parceria com D'Adamo e Garillo no próximo trabalho, em concepção neste momento.
O repórter viajou a convite da organização do festival
“Incompleto”, Zé Celso não para nunca
Depois da saga de 27 horas, duração total dos cinco espetáculos (A terra, O homem I, O homem II, A luta I, A luta II) integrantes de Os sertões, transposição cênica do livro de Euclides da Cunha, o Teatro Oficina Uzyna Uzona percorre o Brasil apresentando quatro montagens – O banquete, de Platão (que acaba de passar pelo FIT de Belo Horizonte), Bacantes, de Eurípedes, Taniko – O rito do mar, de Zeami Motokiyo, e Estrela brazyleira a vagar, segundo dos quatro textos que o próprio Zé Celso escreveu sobre a atriz Cacilda Becker. Com turnê iniciada em Belém, a companhia seguirá para Inhotim, Manaus e Rio de Janeiro, onde deverá chegar em novembro.
– Nós ensaiamos O banquete em uma semana, em Zagreb – opina José Celso, diretor do Teatro Oficina. – É difícil captar recursos para o teatro. Não foi retomada a consciência de uma disciplina sagrada que existia nos anos 60. Não há nos jovens de hoje o fanatismo que nós tínhamos.
Apesar das dificuldades, o grupo não esmorece. Lançará, em setembro, os DVDs referentes às filmagens de Os sertões - cada um assinado por um diretor diferente (Tommy Pietra, Fernando Coimbra, Marcelo Drummond, Elaine César e Eryk Rocha). E se prepara para abrir a Bienal de São Paulo, no dia 21 de setembro, com O bailado do Deus morto, peça de Flavio de Carvalho. Como se não bastasse, Zé Celso planeja fazer curso de métrica com José Miguel Wisnik.
– Estamos numa fase de aprendizado – sintetiza o diretor, que diz não acreditar na possibilidade do ator completo. – O ator está sempre se completando. Quem acredita em completude é Platão. Eu sou mais existencialista. Constato que existo. Não existe o ser, mas o ser sendo. Não se chega a algum lugar. Não há Messias.
Aos 73 anos, Zé Celso não perde de vista a sintonia com o presente.
– Sinto o eterno presente de tudo. A memória não é para cultuar, e sim para usufruir, devorar. Trata-se de um inesgotável acervo de riqueza – sublinha.