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Cultura
Um comunista ajuda a mostrar o Brasil a Tio Sam

Fonte: Valor Econômico, 06/03/2012.

Por: Amarílis Lage

No fim de 1942, a americana Blanche Knopf veio ao Brasil com o que se poderia considerar uma missão diplomática: selecionar livros que ajudassem a entender a história brasileira, para que fossem traduzidos e lançados nos Estados Unidos. O projeto era patrocinado pelo Departamento de Estado americano, que, por meio do Escritório do Coordenador de Assuntos Interamericanos, mantinha um programa de intercâmbio cultural como parte da política de boa vizinhança do presidente Franklin Roosevelt, que buscava aumentar a influência americana na América Latina. Mulher e sócia de Alfred Knopf, dono da Alfred A. Knopf Publishers, Blanche escolheu "Angústia", de Graciliano Ramos, "Casa Grande e Senzala", de Gilberto Freyre, e "Terras do Sem Fim", de Jorge Amado.

Essa relação entre tradução, política e contexto histórico é um dos aspectos abordados pela pesquisadora e tradutora Marly Tooge em "Traduzindo o Brazil - O País Mestiço de Jorge Amado", recém-lançado pela editora Humanitas.

No livro, baseado em sua tese defendida na USP, Marly analisa as versões americanas de três obras do autor baiano, morto em 2001, aos 88 anos: "Terras do Sem Fim", "Gabriela Cravo e Canela", que se tornou um best-seller, e "Tenda dos Milagres". Ligado a questões raciais no Brasil, este título foi lançado nos Estados Unidos em 1971, três anos após o assassinato de Martin Luther King, líder do movimento pelos direitos civis dos negros.

O trabalho se apoia em entrevistas, críticas publicadas nos Estados Unidos e outros estudos que avaliaram a tradução da obra de Jorge Amado pelo mundo. "Uma pesquisa mostrou que, na Polônia, foram escolhidas as primeiras obras, mais políticas. Outra, mostra como a Alemanha Oriental buscou nos livros o viés do comunismo, e a Ocidental, o do exotismo. Jorge Amado é interessante por causa dessa dualidade: tinha um lado exótico, sensual, libertário, como um arcabouço da fase comunista. Cada país buscou acentuar uma dessas características", diz Marly. Ela explica que Amado começou a ser exportado na década de 1930, em razão de sua atuação no Partido Comunista. "Cacau" é lançado na Argentina em 1935, "Jubiabá" chega a Paris em 1938.

Nos Estados Unidos, a preferência foi dada aos livros de Amado que traziam um Brasil carregado de imagens tropicais e sensuais, aspectos que reforçavam conceitos estabelecidos sobre o país. Gabriela remetia a Carmen Miranda, e Vadinho a Zé Carioca, compara Marly. A "Time" resumia assim "Dona Flor e Seus Dois Maridos": "Comida e sexo. Sexo e comida. Frango em leite de coco - vatapá - então uma noite clara sob as estrelas. Isso constitui a vida no Estado brasileiro da Bahia, de acordo com seu mais celebrado escritor, Jorge Amado".

Nos EUA, a preferência foi dada aos livros carregados de imagens tropicais e sensuais, que reforçavam conceitos estabelecidos

"Algumas das obras da fase comunista chegaram a entrar lá, mas sem nenhum sucesso comercial e com muita crítica da própria imprensa, que as considerava uma coisa muito panfletária", afirma a pesquisadora.

Os mais bem-sucedidos comercialmente foram "Gabriela" e "Dona Flor e Seus Dois Maridos". Publicado nos Estados Unidos em 1962, quando já havia sido traduzido para 14 idiomas, "Gabriela" entrou poucas semanas depois na lista de best-sellers do "New York Times" e ali se manteve por cerca de um ano. Essa tradução, que havia desagradado ao próprio Knopf, é a que apresenta as características estrangeiras de forma mais pasteurizada, na opinião de Marly. "Em 'Gabriela', coronéis usam baixo calão, falam de forma mais rude; Mundinho Falcão [exportador de cacau] usa um vocabulário mais elevado, para mostrar que é educado; os escravos falam errado porque não tiveram acesso à educação. Há uma intenção política nessa escolha. Na tradução, isso some, todo mundo fala igual", observa a pesquisadora.

Para Marly, a aceitação da obra, lançada durante a Guerra Fria, também esteve relacionada à ideia de que o livro rejeitava a doutrina soviética. A crítica no "New York Times" contava que "Gabriela" marcava a liberação do autor "de um longo período de compromisso ideológico com a ortodoxia marxista". De fato, Amado havia se afastado do Partido Comunista em 1955, três anos antes de lançar "Gabriela" no Brasil. Mas o escritor negou que o livro marcasse o abandono do discurso político.

"Dona Flor", cuja tradução foi lançada em 1969, "deveria fazer Stálin se revirar no caixão", dizia o "New York Times". Os rituais do candomblé, preservados na tradução, foram lidos como realismo fantástico, diz Marly. "Jorge Amado era do candomblé e gostava do sincretismo religioso. Ele coloca isso em 'Terras do Sem Fim', e há uma crítica muito forte a essa coisa da feitiçaria. Em 'Gabriela', esse elemento some. Mas em 'Dona Flor' é impossível tirá-lo. Como nessa época [fim dos anos 60] o realismo mágico estava em alta nos Estados Unidos, aquilo foi visto como fantasia, e não como uma crença."

Para Knopf, que se tornou amigo de Amado, o melhor romance do escritor baiano era "Tenda dos Milagres", que denunciava o preconceito racial no Brasil e exibia fortemente rituais de origem africana - o que exigiu a inclusão de um glossário na tradução. A obra, porém, não foi bem recebida. A crítica do "Washington Post" reclamou dos "ininteligíveis africanismos". O lançamento da tradução de "Tereza Batista Cansada de Guerra", em 1975, marcou o fim da boa fase do autor no país, como cita Marly. O "New York Times" apontou que as descrições sobre o sertão, com suas terras feudais e corrupção moral, não dariam a Amado "qualquer louvor junto à Câmara de Comércio local".

Para a pesquisadora, o "Programa de Apoio à Tradução e Publicação de Autores Brasileiros no Exterior", criado no ano passado pela Fundação Biblioteca Nacional, pode permitir a divulgação de uma imagem mais multifacetada do Brasil. "Não sou contra passar o que foi passado, e não falo em mito. O que foi passado existe, mas vamos mostrar outros lados. Hoje existem vários grupos tentando passar essa ideia de diversidade, outros se aproveitando dos estereótipos por questões comerciais. Essas imagens existem, mas é sempre mais amplo." O programa prevê o investimento de aproximadamente US$ 7,6 milhões até 2020, o maior já feito pelo governo brasileiro para divulgar a literatura nacional no exterior.

"Traduzindo o Brazil: o País Mestiço de Jorge Amado"

Marly Tooge. Editora Humanitas. 238 págs, R$ 35

 
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