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Economia Geral
La Matanza explica favoritismo de Cristina

Valor Econômico, 13/10/2011.
Por Cesar Felício | De Buenos Aires

 

 

Nicolas Pousthomis /Valor/Nicolas Pousthomis /Valor
Com 15 núcleos urbanos e 142 favelas, La Matanza está localizada a cerca de 40 quilômetros de Buenos Aires

 

O segundo maior município da Argentina está fora de qualquer roteiro turístico e não é considerado propriamente uma cidade nem pelos próprios argentinos. Dividido em 15 núcleos urbanos sem um centro que se destaque, o município de La Matanza, que faz divisa à oeste com Buenos Aires, atingiu no censo nacional do ano passado 1,8 milhão de habitantes e possui a marca de 142 "villas", isto é, favelas. E é uma das chaves para se entender porque a presidente Cristina Kirchner é favorita para a reeleição na disputa presidencial que vai acontecer em 24 de outubro.

Lá nasceu, em dezembro de 2009, a variante argentina do programa Bolsa Família, a "Asignación Universal por Hijo" (AUH, aporte universal por filho), que garante um pagamento equivalente a cerca de US$ 67 por filho em famílias carentes. São 300 mil benefícios estimados para La Matanza, que proporcionou à presidente 61% dos 605,1 mil votos da localidade nas prévias partidárias de agosto, nove pontos percentuais acima da média nacional. No país, o governo federal deve fechar o ano pagando 3,6 milhões de benefícios para 1,9 milhão de famílias. A conta chega a 9 bilhões de pesos, ou cerca de US$ 2,1 bilhões.

A AUH é o trunfo mais recente, mas está longe de ser a única arma no arsenal de benefícios sociais do governo, comandada pela ministra de Desenvolvimento Social, Alicia Kirchner, cunhada da presidente e irmã do falecido ex-presidente Néstor Kirchner. Representa cerca de 40% dos 26 bilhões de pesos previstos para a área no Orçamento de 2012. Em março do ano passado, 21% da população declarou receber benefícios do governo, segundo uma pesquisa coordenada por German Lodola, professor da Universidade Torcuato di Tella.

Fora a AUH, os benefícios sociais mais relevantes em La Matanza são os repasses para cooperativas de trabalho, que, em época eleitoral, se transformam em um esteio para os candidatos kirchneristas. Em La Matanza, 156 cooperativas estavam inscritas no final do ano passado no programa "Argentina Trabaja", que paga benefícios de 1.300 pesos para cada integrante. Em todo o país, o programa paga subsídio para 190 mil pessoas.

"Aqui as eleições se decidem pelos planos sociais", lamentou Silvia Flores, diretora de La Juanita, no distrito de Laferrere, uma das raras cooperativas de trabalho que não estão alinhadas ao governo. O pai de Silvia, Hector Flores, um piqueteiro nos anos 90, é candidato a Senador pela Coalizão Cívica, partido que lançou à Presidência a deputada Elisa Carrió e que teve 3% dos votos nas prévias.

"A geração de emprego é enorme nestes últimos oito anos, mas não chegamos aos padrões que tínhamos antes da crise. A força do governo aqui se explica pelo crescimento econômico e pelo pagamento de benefícios", confirmou o secretário municipal de Produção, Francisco Lamanna, alinhado ao kirchnerismo.

Não há dados precisos sobre emprego e crescimento econômico na cidade, mas Lamanna afirma que existem atualmente 7.500 estabelecimentos industriais em La Matanza. Em 2003, data do último levantamento oficial, havia 2.759. E, há 20 anos, de acordo com Lamanna, eram 12 mil. "Muitas das novas fábricas são de fundo de quintal, do ramo calçadista ou têxtil. O processo produtivo mudou", afirmou o secretário.

La Matanza já foi uma importante referência da indústria argentina. Entre as décadas de 40 e 60, marcadas pela ascensão e primeira queda do caudilho Juan Domingo Perón, a cidade recebeu a instalação de montadoras de automóveis, como Mercedes Benz e Chrysler, no distrito de Virrey del Pino, e de siderúrgicas como a Acindar, no distrito de La Tablada. Em 1949, Perón inaugurou o distrito de Ciudad Evita, planejado para ser um bairro residencial modelo para a classe operária. Nos anos 60, a área dividiu a vocação industrial com o polo automotivo instalado em Córdoba. A partir de então, teve início a desindustrialização.

O crescimento demográfico, contudo, se acelerou nas últimas décadas. Neste século, a população cresceu 47% entre 2000 e 2010. O aluvião de quase 600 mil novos habitantes fez crescer a pobreza e a informalidade. Poucos moradores desse grupo se instalaram em áreas regularizadas. Segundo dados da província de Buenos Aires, houve um aumento de apenas 15,6% na área legalmente ocupada por novas edificações em La Matanza entre 2004 e 2008. Nesse período, o crescimento das construções em nível regional foi de 65%.

Em suas áreas mais pobres, La Matanza mudou a sua vocação de região industrial para cidade dormitório de trabalhadores da construção civil, empregadas domésticas, ambulantes e outros integrantes do mercado informal. Um levantamento de 2005 apontava que 60% da mão de obra não era registrada. Nos distritos mais próximos de Buenos Aires desenvolveu-se o setor de serviços. Desativada nos anos 80, a antiga fábrica da Chrysler, no distrito de San Justo, é hoje sede de uma universidade com 40 mil alunos.

"As fábricas se tornaram cascas vazias. Muitas delas foram ocupadas por trabalhadores, que se organizaram em cooperativas. Muitas delas passaram a receber subsídios do governo, e outras se converteram em investimentos comerciais ou imobiliários", disse o presidente da Câmara de Indústria e Comércio de La Matanza, Luis Mogno, dono de uma metalúrgica que fornece componentes para refrigeradores.

As diferenças entre os 15 distritos de La Matanza alimentam movimentos pela separação. "La Matanza é tão grande que se torna um objeto do desejo para qualquer político, mas aqui é um somatório de diversas cidades dormitório de Buenos Aires e alguma indústria. Com a divisão, a estrutura de clientela do poder se romperia, e haveria uma disputa pelos novos municípios. É a unidade que faz com que o poder não se rompa", diz o deputado federal Hector Flores, que concorre com chances ínfimas ao Senado.

"La Matanza é acima de tudo uma unidade política, e não econômica. Mas a estrutura enxuta é um diferencial que temos. São 6,5 mil funcionários públicos, 25 vereadores e um prefeito para quase 2 milhões de pessoas. A sociedade não estaria disposta a multiplicar essa estrutura por quatro", afirmou o secretário municipal Lamanna.


Migrantes são maioria na população

 

 

Nicolas Pousthomis/Valor/Nicolas Pousthomis/Valor
Pessimista quanto à possibilidade de conseguir um emprego formal, a tecelã Abigail Francini dá de mamar ao filho

 Apenas um em cada cinco moradores das muitas ruas sem calçamento de La Matanza são "matanceros" de origem. Em uma sala da unidade de costureiras da Cooperativa La Juanita, as histórias das migrantes se superpõem e mostram que a marca industrial se perde no município. "Sou de Tucumán. Vim para cá pela família, em 1991. Meu marido trabalhava como pedreiro. Aqui era mais barato para se instalar e já estavam aqui minhas irmãs", disse Carmen Jimenez, mãe de sete filhos.

Também incentivada por parentes, a paraguaia Julia Careaga trocou seu país de origem por La Matanza no início dos anos 90. Além de se dedicar a erguer paredes, seus filhos e seus irmãos também são "remiseros": fazem transporte de pessoas e de cargas, de maneira informal, em alguns dos velhos Peugeot e Ford que escapam dos pontos de alagamento em Laferrere, o maior dos distritos de La Matanza.

Originária de Misiones, a costureira Marina Leiva passou antes de chegar ao distrito de Laferrere pela favela de Ciudadela Norte, no distrito de Ramos Mejía, também em La Matanza. "Aqui era possível entrar em um loteamento e ainda receber material de construção", disse.

Nenhuma das três possui a escritura dos imóveis onde moram. "Para se obter uma escritura por aqui não se gasta menos do que 8.000 pesos", comentou Silvia Flores, a diretora da cooperativa. Nascida na província de Entre Ríos, Sílvia chegou a La Matanza quando o pai, Hector, foi trabalhar na metalúrgica Yelmo, desaparecida nos anos 90.

Afastada do tear por complicações depois do último parto, Abigail Francini se recupera na casa de dois cômodos de sua mãe, a poucas quadras da cooperativa. Está pessimista em relação à possibilidade de voltar a ter um emprego formal. "Trabalhava em uma indústria, mas fui demitida pouco depois de voltar de licença do meu filho mais velho", comentou. Abigail já está no quarto filho. É solteira.

 
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