Colômbia: Eventual vitória de Santos pode ser reflexo de sistema falho
Por BEATRIZ FARRUGIA
SÃO PAULO, 18 JUN (ANSA) - O candidato governista Juan Manuel Santos se perfila a ser o sucessor do atual presidente, Álvaro Uribe, no segundo turno das eleições presidenciais colombianas, que acontecerá no próximo domingo, em meio a um sistema criticado por especialistas ouvidos pela ANSA.
"O sistema político e eleitoral colombiano é profundamente corrupto. São muitos os vícios e as práticas que violam a liberdade de expressão e os direitos à cidadania", afirmou o colombiano Jorge Gantiva Silva, professor da Universidade de Tolima, que citou como exemplos "a histórica compra de votos, a manipulação das pesquisas e a intervenção sistemática dos meios de comunicação".
Desse modo, ainda segundo o analista, o cenário previsto para este domingo deverá ser o mesmo que o registrado no primeiro turno do pleito, em 30 de maio. Naquela ocasião, diferentemente do que apontavam as pesquisas de intenção de voto, o ex-ministro da Defesa de Uribe venceu com 46,5% dos votos, contra 21,5% do segundo colocado, o opositor Antanas Mockus.
Em relação ao baixo desempenho de Mockus, que nos estudos realizados antes das votações aparecia à frente na disputa, com mais de 30% das preferências, Gantiva apontou que este é "resultado da política de espetáculo da qual recorrem seus dirigentes".
"Seu projeto de campanha carece de organização, já que, essencialmente, foi movido pela Internet e pelas redes sociais". Assim, os dados registrados no primeiro turno, "de nenhuma maneira expressam 'traição' ou 'engano' das pesquisas", ressaltou.
Por outro lado, o especialista em História e Relações Internacionais Carlos Eduardo Vidigal, da Universidade de Brasília (UnB), opinou que "o eleitorado colombiano sinalizou no primeiro turno que quer manter as políticas de segurança e mesmo sociais do governo Uribe, em claro posicionamento continuísta."
"Esse conservadorismo é tradicional na sociedade colombiana, reforçado pelos traumas enfrentados nas últimas décadas em virtude das ações das guerrilhas de esquerda e dos paramilitares", explicou Vidigal.
No mesmo sentido, a especialista em Economia Social e Desenvolvimento da América Latina Anapaula Iacovino Davila, da FAAP, considerou que os colombianos "não gostam de ver o nome de seu país diretamente associado ao tráfico de drogas, às guerrilhas, ao terrorismo". Por isso, é a "autoestima do colombiano" que está em jogo nestas votações. "Os colombianos reconhecem que muito foi feito, mas que ainda há muito que fazer. A expectativa é de continuidade".
Eleito pela primeira vez em 2002, Uribe, reeleito em 2006 -- após ser beneficiado por uma reforma constitucional --, teve uma gestão marcada por uma forte atuação contra os grupos guerrilheiros, fragilizando as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), e o narcotráfico.
Conservador e aliado dos Estados Unidos, o mandatário colombiano deve deixar o governo, em 7 de agosto, com mais de 70% de aprovação popular, e a desarticulação de parte da alta cúpula das Farc, com a morte de líderes como Raúl Reys, Iván Ríos e Tomás Molina Caracas.
Desafios
Com isso, segundo Davila, a nova gestão deverá enfrentar desafios comuns a todos os latino-americanos, como o "crescimento sustentável em setores estratégicos, base educacional sólida e ampla e desenvolvimento científico e tecnológico".
Além disso, neste momento "a Colômbia procura mais a paz do que o conflito, tanto no plano interno quanto no externo", complementou a especialista, referindo-se às crises enfrentadas pela atual administração com os países vizinhos.
Santos, candidato do Partido Social da Unidade Nacional, que já comandou os ministérios de Comércio Exterior e da Fazenda, enfrentará no domingo o filósofo e professor Mockus, do Partido Verde (PV), que governou por duas vezes a capital do país, Bogotá.
Fonte: O Repórter. Acesso em 19/06/2010. |