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O comportamento de quatro empresas na América Latina - Projeto AMA - Multinacionais e Meio Ambiente

Pesquisa conclui que as políticas ambientais de Ambev, Coca-Cola, Nestlé e Unilever são diferenciadas nos cinco países abrangidos pela pesquisa – Argentina, Brasil, Colômbia, Equador e Peru. Essas diferenças se devem a aspectos culturais, legislação nacional, pressões externas e  presença das empresas no mercado nacional.  As respostas sindicais também variam. Um traço comum pode ser encontrado  em todos os países: trabalhadores e dirigentes sindicais conhecem pouco das  políticas e ações das companhias. Questões ambientais passam largo da agenda dos acordos coletivos.

No início de 2006 o Instituto Observatório Social reuniu os institutos CFES/Lasos da Argentina, ligado à CNA (Confederação dos Trabalhadores da Argentina), o Programa Laboral de Desarollo (Plades), do Peru, a ENS (Escola Nacional Sindical) de Medellín, Colômbia, e o consultor Victor Lopez, do Equador para desenvolver a primeira pesquisa conjunta com esses países.
Denominada AMA – Multinacionais e Meio Ambiente (a sigla AMA se refere aos Acordos Multilaterais Ambientais que embasam o projeto), teve como objetivo conhecer o comportamento ambiental e sócio-trabalhista de quatro empresas do ramo de alimentos e bebidas: Ambev, Coca-Cola, Nestlé e Unilever.
A realização dessa pesquisa envolveu uma série de desafios para o IOS: trabalhar com um novo tema, meio ambiente, ainda pouco explorado pelo movimento sindical e pelo próprio IOS; trabalhar com institutos de outros países, superando barreiras lingüísticas e culturais; desenvolver uma metodologia que contemplasse o tema e a participação de outros países na aplicação da pesquisa.
Para iniciar os estudos era necessário fazer uma reflexão a priori, partindo de algumas questões:

1. Como as empresas escolhidas apresentam publicamente suas políticas ambientais nos diferentes países?
2. Até que ponto as empresas utilizam os padrões dos acordos multilaterais ambientais para elaborar suas políticas de meio ambiente?
3. Qual é o nível de conhecimento dos trabalhadores a respeito dessas políticas ambientais?

Para responder as duas primeiras questões foi elaborada uma reflexão teórica e foram examinadas as políticas ambientais e trabalhistas das empresas estudadas.
Para responder a terceira questão foram realizadas entrevistas com trabalhadores e dirigentes sindicais das empresas. Essas etapas foram realizadas por todos os países envolvidos.

Políticas e ações diferenciadas
A crescente influência das empresas multinacionais na elaboração de políticas estatais e multilaterais, bem como a intervenção sócio-ambiental dessas empresas em âmbito nacional, têm levantado uma série de questionamentos por parte setores da sociedade civil, ongs, movimentos sociais – em especial o sindical – e representantes do mundo acadêmico. Este movimento questiona se o papel das empresas é apenas gerar lucros ou se, além disso, é possível desenvolver políticas, programas e ações de Responsabilidade Social e Ambiental.
As grandes corporações têm influência na elaboração de regimes internacionais – tratados ou acordos multilaterais ambientais na forma de Convenções e os Protocolos (Quioto, Montreal, Cartagena, por exemplo). Por sua vez, as empresas são influenciadas pelos tratados internacionais para elaborar suas políticas ambientais. Para perceber a influência dos tratados ambientais nas políticas das empresas foram escolhidos alguns acordos multilaterais, por serem considerados os mais importantes no âmbito da OMC:

• Protocolo de Montreal sobre as substâncias que destroem a Camada de Ozônio (1987)
• Convenção da Basiléia sobre Controle dos Movimentos Transfronteiriços de Resíduos
Perigosos e o seu Depósito (1989)
• Convenção de Roterdã sobre Procedimento para o Consentimento Prévio para o Comércio
Internacional de Certos Químicos e Pesticidas Perigosos (1998)
• Convenção de Estocolmo sobre Poluentes Orgânicos Persistentes (1990)
• Convenção de Mudança do Clima (1994) – O objetivo é estabilizar as concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera. O Protocolo de Quioto (1997), assinado em 1997, faz parte da Convenção Quadro de Mudança de Clima e diferentemente da Convenção, o Protocolo estabelece metas e prazos.
• Convenção de Biodiversidade ECO 92 - O objetivo da Convenção é conservar a diversidade biológica através da utilização sustentável de seus componentes e a repartição justa e eqüitativa dos benefícios derivados da utilização dos recursos genéticos.

As grandes corporações participam indiretamente nos resultados e na eficácia desses tratados internacionais, pois dispõem de recursos e tecnologia para transformar esses tratados em ações concretas nas suas políticas.
Por exemplo, essas empresas têm tecnologia para diminuir as emissões de gases que causam o efeito estufa ou que destroem a camada de ozônio. As empresas, contudo, incorporam essas convenções e protocolos de forma diferente entre elas, e também desenvolvem suas políticas de maneira diferenciada em cada país.
Se, por um lado, uma múlti tem a autoridade privada de elaborar e implementar normas ambientais (ISO 14000, por exemplo), por outra lado, as empresas recebem pressões sociais de organizações da sociedade civil, de movimento sociais, do movimento sindical e operário, ongs, atores sociais que também têm atuação globalizada e contra-hegemônica. As formas como as empresas vão exercer o seu poder e qual ambiente essas empresas vão encontrar nas sociedades nacionais são muito diferentes.

Os resultados da pesquisa

A avaliação das políticas ambientais das empresas mostrou que elas são divulgadas de maneira diferenciada nos países estudados. A referência aos tratados ambientais na elaboração dessas políticas por parte das empresas é, também, diferenciada. Nas políticas ambientais das empresas de bebidas e alimentação os tratados selecionados são pouco citados. No processo produtivo das empresas de alimentação e bebida, a água é a matéria-prima mais utilizada e, portanto, suas políticas ambientais estão voltadas para o tratamento de efluentes. Entre os tratados ambientais escolhidos, nenhum contempla padrões internacionais sobre o uso da água.
As citações de tratados são feitas de formas diferenciadas nos países estudados, mesmo porque o comportamento dessas empresas também é diferenciado nestes
países considerando-se: aspectos culturais, legislação nacional, pressões externas das partes interessadas, presença da empresa no mercado nacional. Assim como o comportamento das empresas, as respostas sindicais são diferenciadas.

Ambev

É interessante ressaltar que as políticas ambientais da matriz brasileira valem para toda a América Latina e a gerência de Responsabilidade Ambiental para a América Latina localiza-se no Brasil, o maior mercado da região.
Na Argentina há pouca divulgação das políticas ambientais da empresa para as partes interessadas. Além disso, houve também dificuldade de se conseguir informações dos
sindicatos. Como a Ambev, com a marca Quilmes, domina o mercado de cervejas naquele país, pode-se concluir que a falta de alternativas torna a empresa muito forte e o país mais vulnerável, mais dependente de suas ações. Da mesma forma, a baixa mobilização social no contexto argentino permite à empresa não adotar políticas ambientais específicas para este país, apenas aquelas delineadas pela matriz brasileira. Mesmo assim, sabe-se que na Argentina a empresa adota algumas ações: tratamento de efluentes da unidade de produção da Quilmes e outras unidades, que podem se estender às engarrafadoras da Pepsi. A empresa conta com um grupo de gestão ambiental que se encarrega da certificação ISO 14000. As plantas certificadas são: Zarate, Mendoza, Corrientes e Tucumán. No Brasil as políticas da empresa são focadas em resultados, e a grande capacidade de mobilização das partes interessadas para esse objetivo é a marca registrada da Ambev.
Essa dinâmica torna a área ambiental da empresa uma das mais ativas para o cumprimento de metas e programas de produção. As políticas ambientais são um diferencial importante,
seja na cristalização desses valores e identidades para a cultura corporativa da empresa, seja na capacidade de influência direta sobre o consumidor.
Nesse sentido, os dirigentes sindicais consideram que a empresa dá importância às suas políticas ambientais.
A Ambev não tem o ISO 14001 porque tem um sistema de gestão próprio e, segundo os trabalhadores entrevistados, é mais sofisticado que o sistema ISO.
No Equador, mesmo sabendo-se dos impactos ambientais ocasionados pela produção de cerveja como as emissões de gases e contaminação da água, a Ambev não informa se faz
algum controle de suas emissões ou se há um sistema de tratamento de efluentes, nem tampouco se os restos de fermentação, levedura e grãos secos são recuperados para produção de alimentação animal. A única política ambiental que a Ambev informa no
Equador refere-se à reciclagem de resíduos sólidos. A ausência de um movimento sindical organizado naquele país deixa a empresa livre para agir: não há sindicatos que representem os seus trabalhadores nem tampouco movimentos sociais que questionem as políticas corporativas da empresa.
O grau de vulnerabilidade do Equador não é maior pelo fato de a empresa não ser a líder do mercado.
No Peru, o Sindicato Único de Trabajadores de la CIA. Cervecera AmBev Perú S.A.C. representa apenas os trabalhadores diretos da empresa.
De maneira geral, as políticas ambientais da empresa referem-se ao reaproveitamento da água, ao controle de emissões de gás carbônico e à reciclagem de resíduos sólidos. Chama
a atenção o desconhecimento dos trabalhadores em relação aos tratados ambientais que dão suporte ao estudo: 71,4% afirmaram desconhecer os tratados internacionais e se a
empresa desenvolve práticas inspiradas por esses tratados. As políticas específicas para o Peru não estão difundidas por todo o território nacional e, em sua maioria, se resumem a programas internos e obras de projeção social. Portanto, seguindo sua política para a América do Sul, a Ambev divulga suas políticas ambientais no Peru. Pelo fato de a empresa possuir uma parte interessada importante – o movimento sindical, de não deter uma posição dominante no mercado e contar com um desempenho favorável da economia, esses fatores tornam o Peru um país menos vulnerável à ação da empresa.

Coca-Cola

A pesquisa do Observatório Social constatou que, entre os países pesquisados, a Coca-Cola fez uma divulgação consolidada de suas políticas ambientais apenas no Brasil.
Para os trabalhadores da Coca- Cola na Argentina, a empresa tem algum compromisso com o meio ambiente ao divulgar suas políticas e projetos referentes ao tema. Os trabalhadores,
contudo, demonstraram pouco conhecimento acerca das políticas ambientais da empresa. A maioria não soube responder se a empresa tem ISO 14.000, mesmo porque na Argentina
a companhia não informa, em seu sítio da internet, se possui a certificação.
A atuação da empresa nesse país através de cinco grandes engarrafadoras não tira a capacidade de a Coca-Cola exercer grande influência através de sua marca. Porém, apesar
de ter essa capacidade, pode-se presumir que a política da empresa em toda a América do Sul é focada no negócio e pouco permeável à influência das partes interessadas, em especial dos trabalhadores.
No Brasil, o modelo de negócio é semelhante ao da Argentina: a empresa atua através de engarrafadoras. Trata-se de um negócio baseado na concessão de uma licença para produzir. Para compensar a fragilidade desse modelo, a Coca-Cola é a empresa que desenvolveu campanhas mais agressivas e que dispõe de projetos mais inovadores para o tema da sustentabilidade. Como o modelo de negócio está baseado na “terceirização” ostensiva e como a empresa lida com bens de consumo, necessita maximizar sua influência por meio de políticas ambientais em escala global. Em 1997 a Coca-Cola criou um sistema de Gestão Ambiental válido para os negócios no mundo, chamado de eKOsystem. Este sistema é composto de diversas práticas antes consolidadas pela empresa que tratam
do gerenciamento de resíduos sólidos, tratamento de efluentes industriais, controle de gases, uso da água, além de outras medidas de prevenção. Em 1995, a Coca-Cola foi pioneira ao adotar medidas efetivas de preservação da camada de ozônio, antes mesmo da assinatura do Protocolo de Montreal (1997).
Na Colômbia, como no Brasil e na Argentina, a Coca-Cola produz e distribui a bebida através de um sistema de engarrafadoras. A pesquisa na Colômbia aponta que há sérias violações sindicais por parte da Coca- Cola e suas engarrafadoras, não só em relação à liberdade sindical como também no que diz respeito à vida, liberdade, e integridade física dos trabalhadores sindicalizados, e, sobretudo, os trabalhadores afiliados ao Sinaltrainal (Sindicato Nacional de Trabajadores de la Industria de Alimentos). O contexto de violência política colombiano explica, em parte, o comportamento da Coca-Cola. A empresa também desenvolveu um comportamento agressivo e intimidatório em relação às partes interessadas. Como o seu comportamento traz um risco de reputação que atinge diretamente
suas marcas junto ao consumidor, a Coca-Cola desenvolve políticas ambientais extremamente agressivas e inovadoras. Entretanto, as partes interessadas, sobretudo os sindicatos, não têm participação alguma.
Os principais impactos ambientais causados pela produção de Coca-cola são relacionados ao uso da água, energia e materiais não-biodegradáveis para produzir de vasilhames. No país nenhuma máquina de refrigeração contém CFC, gás que diminui da camada de ozônio. Houve uma tentativa, por parte dos sindicatos e particularmente do Sinaltrainal, incluir cláusulas nas convenções coletivas comprometendo a empresa a melhorar a qualidade do ar e do meio ambiente. Porém, os negociadores para Coca- Cola Femsa nunca aceitaram suas
propostas, com o argumento de que este tema está fora do âmbito trabalhista na mesa de negociação.
No Equador não existe organização sindical na EBC (Ecuador Bottling Company), engarrafadora exclusiva da Coca-Cola, pois esta foi desarticulada no fim dos anos 1990
quando houve a fusão das engarrafadoras nacionais. Há uma associação de empregados, ainda que não seja conhecida sua agenda trabalhista frente à EBC. Nesse sentido, o negócio
da Coca-Cola no Equador é pouco voltado para as partes interessadas.
De novo, a debilidade do movimento social equatoriano aumenta o poder de influência da empresa no país. Em relação às políticas de meio ambiente, a Coca-Cola Company enumerou três desafios principais: água, embalagem, proteção ao clima e energia.
As plantas engarrafadoras da EBC de Quito e Guayaquil conseguiram o reconhecimento
dos auditores representantes da Coca-Cola Company para o Sistema de Gestão Ambiental. Não é possível identificar, contudo, como o SGI incorpora as três variáveis ambientais
sensíveis referidas no Relatório Ambiental de Coca-Cola. Os trabalhadores entrevistados não detalharam os tipos de impactos ambientais gerados pela empresa.
No Peru, verifica-se que uma grande engarrafadora nacional (J.R. Lindley) monopoliza as atividades de envase. A Lindley tem suas próprias políticas ambientais, embora a Coca-
Cola defina as diretrizes. O conhecimento de trabalhadores e dirigentes da Lindley em relação ao meio ambiente, se comparado com situações dos outros países pesquisados, é
maior. Entre os entrevistados, 87,5% têm alto conhecimento das práticas ambientais da empresa; todos os trabalhadores conhecem a existência da certificação ISO 14000 e a maioria conhece onde é feita a captação de água. No Peru, a Coca-Cola divulga
muito pouco suas políticas, assim como nos outros países da América do Sul, exceto o Brasil. Mas o comportamento da Lindley, especificamente, é mais voltado às partes interessadas e a pressão do movimento sindical é mais efetiva. Mesmo assim, mais de 50% dos entrevistados responderam que os temas ambientais não fazem parte da negociação coletiva.

Nestlé

Na Argentina a pesquisa foi feita com os trabalhadores do Sindicato Argentino de la Industria de la Alimentación da unidade produtiva Magdalena, em que 90% do trabalhadores são sindicalizados. As poucas informações divulgadas pela empresa dizem respeito à compatibilidade de suas políticas ambientais com as normas internacionais
voluntárias como ISO14001 e o plano de Gestão Ecológico e Auditoria da União Européia.
O alto grau de sindicalização entre os trabalhadores da Nestlé pode significar a presença de uma parte interessada forte e atuante. Contudo, se o comportamento da empresa em relação
à liberdade sindical é positivo, percebe- se que não há relevância quanto ao tema ambiental: as políticas ambientais são pouco divulgadas; na opinião dos trabalhadores há pouco comprometimento da empresa com o meio ambiente e os temas ambientais não são tratados nos processos de negociação. Detentora de uma marca forte, a empresa tem a possibilidade
de exercer a sua influência e com isso direcionar o seu poder de negociação para determinados temas em que a questão ambiental não está incluída.
No Brasil, ao contrário do que ocorre na Coca-Cola e da Ambev, a área ambiental da Nestlé não tem o mesmo destaque. Suas ações e programas estão articulados à cadeia de valor que organiza a produção dos insumos (leite, cacau e água) e as marcas. O fato de dispor de marcas e produtos muito próximos do consumidor leva à parcimônia em suas ações, programas e políticas sociais e ambientais. Adota comportamento cauteloso junto à representação de empregados, sempre aberta ao diálogo e à negociação. É uma empresa que dificilmente fecha fábricas e demite empregados de forma massiva no Brasil. Com a possibilidade de exercer ser poder brando, os trabalhadores ligados ao Sindicato dos Trabalhadores da Empresa Chocolates Garoto – Nestlé de Vila Velha, na cidade de Vitória
(ES), declararam, em sua maioria, que a empresa tem “muito” compromisso com o meio ambiente, embora declarem também que não há cláusulas ambientais nas convenções coletivas.
A maioria dos entrevistados conhece a origem da captação da água que a empresa realiza para seu abastecimento industrial. A Nestlé tem desde 1963 uma Unidade de Tratamento de
Efluentes (ETE), na fábrica Araçatuba (SP). Em 2004, a Nestlé registrou redução de 14,6% na emissão de CO2, 7,5% na emissão de CFC-11, 14,5% na de SOx e 9,3% na de NOx.
A Nestlé Colômbia tem 1,4 mil trabalhadores diretos, dos quais 60% (840 trabalhadores) são membros do Sinaltrainal. Semelhante à situação em que vivem seus companheiros da
Coca-Cola, os dirigentes do Sinaltrainal com vínculos trabalhistas na Nestlé padecem de violações do direito de liberdade sindical, como também direitos fundamentais à vida e à integridade física. Há evidências de que a empresa, por ação ou omissão, tem sido cúmplice em algumas de tais violações. Os principais impactos ambientais causados pela produção da Nestlé estão relacionados com o uso de energia e água, emissão de gases e o manejo de resíduos sólidos e líquidos. O uso de recursos hídricos nos processos produtivos da empresa na região Andina diminuiu 37% entre 2001 e 2004. Na Colômbia, existem plantas de tratamento de águas residuais industriais nas fábricas de Bugalagrande, Dosquebradas, Florência e Mosquera. A Nestlé reduziu suas emissões de gases de efeito estufa (especificamente, CO2) em 35% na região andina no período 2001-2004 e deixou de usar refrigeradores que afetam a camada de ozônio, de acordo com o Protocolo de Montreal. O Sinaltrainal tentou incluir temas ambientais nas convenções, como a restauração das bacias hidrográficas, mas a Nestlé nunca as aceitou.
No Equador, as políticas ambientais da Nestlé têm colocado em prática medidas que tentam evitar a contaminação da água, ar e solo. Como poucas no Equador, a empresa tem uma planta de tratamento de águas residuais nas unidades Guayaquil e Ecuajugos. Também desenvolve ações para depurar os gases da combustão de caldeiras bem como o uso do amoníaco para refrigeração, gás que não afeta a camada de ozônio. Os trabalhadores consultados não conhecem com precisão as políticas e ações ambientais da Nestlé, mas
identificam que atividades da empresa, como a coleta de leite e emissões de caminhões de distribuição, causam impactos ambientais. A produção, que demanda muita energia térmica
e água e gera grande quantidade de águas residuais com alto material orgânico, apresenta elevada concentração de produtos químicos em virtude do uso de detergentes. A grande
dificuldade de execução do estudo da Nestlé Ecuador se deveu à ausência do movimento sindical. A fragilidade dos sindicatos foi aprofundada com a abertura comercial e a flexibilização dos direitos trabalhistas realizadas na década de 1990. Com isso, a Nestlé adota uma posição hermética frente aos problemas trabalhistas e ambientais. Apesar de as filiais seguirem as diretrizes ambientais da matriz, as partes interessadas têm pouco acesso ao conteúdo dessas diretrizes.
A presença da Nestlé no Peru se consolidou através da compra do fabricante nacional líder de sorvetes e doces D’Onofrio em 1997; a nova empresa passou a chamar-se inicialmente Nestlé D’Onofrio del Perú S.A. O comportamento da Nestlé Peru não destoa de sua atuação em outros países: as políticas ambientais são delineadas pela matriz e, aparentemente, não têm papel de destaque quando se consideram as especificidades ambientais dos países. A empresa tem uma posição líder no mercado peruano: é detentora de marca forte, o que resulta em grande capacidade de influência. O tema ambiental, contudo, está fora da agenda controlada pela empresa. Pode-se dizer que o grau de conhecimento das políticas da empresa por parte de trabalhadores e dirigentes é pequeno. Portanto, o NEMS (Nestlé Environmental Management System, Sistema de Gerenciamento Ambiental da Nestlé) é pouco divulgado (quase 80% dos entrevistados não conhecem ou conhecem pouco as políticas da empresa). Também há demonstração de desinteresse por parte dos dirigentes em incluir temas ambientais nas negociações. A grande maioria dos trabalhadores e todos os dirigentes responderam que os temas ambientais não fazem parte da negociação coletiva, apesar de os trabalhadores assinalarem problemas de contaminação, denúncias e danos ambientais.

Unilever

Um traço comum do comportamento da Unilever nos países estudados é o processo de reestruturação permanente que essa empresa desenvolve globalmente.
Na Argentina os trabalhadores da Unilever são representados principalmente por Sindicato de Trabajadores de Industrias de la Alimentación; Sindicato de Trabajadores Perfumistas
y Sindicato de Trabajadores de Refinerías de Maíz. Este último, circunscrito à planta de Florida e pertencente ao único sindicato ligado à CTA (Central de Trabajadores Argentinos). Os outros pertencem à CGT (Confederación General del Trabajo).
A maioria dos entrevistados declarou que a companhia é negligente quanto ao meio ambiente. Os trabalhadores sindicalizados desconhecem o tema e estavam totalmente alheios às atividades desenvolvidas pela companhia.
A política global de reestruturação da Unilever permite considerar que, também na Argentina, seu comportamento está mais focado no retorno do negócio que no diálogo com as partes interessadas. Voltada para dentro, a Unilever tem políticas de Recursos Humanos bem estruturadas que tentam dar aos trabalhadores sentimento de pertencimento à empresa; percebe- se, contudo, que o diálogo com os trabalhadores e movimento sindical é difícil.
No Brasil, devido à reestruturação constante e à heterogeneidade de 41 sua base sindical, composta majoritariamente por sindicatos ligados à Força Sindical e “independentes”, o comportamento da empresa é o de reconhecer essa dispersão e nada fazer para superá-la. A empresa criou, apenas no Brasil, uma diretoria de assuntos sócio-ambientais para, entre outras atribuições, estabelecer relações com as partes interessadas. Essa estrutura apresenta as boas práticas para o mundo externo, ou seja, do Brasil para o mundo, e, internamente, para fóruns como órgãos públicos e ongs. A atuação da empresa em relação ao meio ambiente acontece em três frentes: consumo de água; reaproveitamento de resíduos sólidos através da racionalização de embalagens, e mudança de fonte de energia em sete das 12 unidades através de um procedimento de substituição de óleo combustível por gás natural e, com isso, redução das emissões de SOx e CO2.
A Unilever Andina na Colômbia vem aplicando também políticas de reestruturação neste país, por meio da mudança da maior parte de sua produção para fábricas no Valle del Cauca. Lá a mão-de-obra é contratada através de cooperativas de trabalho associado em que os trabalhadores recebem salários menores e não podem exercer seu direito de associação sindical e negociação coletiva. No plano de reestruturação na Colômbia, foram fechadas e transferidas unidades e demitidos trabalhadores.
A atuação da empresa na área ambiental tem sido implementar novas tecnologias que diminuam os impactos ambientais – tratar e recuperar água utilizada nos processos de produção em suas fábricas em Bogotá e Valle del Cauca e atuar em conformidade com a legislação colombiana.
A Unilever não adota na Colômbia, portanto, o mesmo comportamento anti-sindical da Coca-Cola e da Nestlé, mas opera no mesmo contexto político adverso. Adiciona-se aqui com um complicador: a estratégia global de reestruturação constante. Com isso, as pressões sociais são dificultadas, o papel das partes interessadas acaba sendo fragilizado e o diálogo social nunca é estabelecido em bases permanentes.
No Equador, atualmente a Unilever emprega trabalhadores por intermediação e terceirização. Não há organizações sindicais para interferir ou questionar este tipo de contratação. Não é possível afirmar se existem organizações do tipo “comitês de empresa”
ou associações de empregados. No caso da Unilever, podemos considerar que o comportamento dessa empresa no Equador é pouco voltado para as partes interessadas. A
fragilidade do movimento sindical e das ações do Estado fazem o ambiente equatoriano pouco resistente às políticas agressivas de reestruturação e de implementação de ações ambientais de parte da empresa. Não há muita informação a respeito das políticas de meio ambiente da Unilever Equador. Sabe-se que é uma das grandes consumidoras de energia elétrica no país, inclusive com fontes de energia poluidoras (diesel, bunker, etc) de geradores elétricos.

Lílian Arruda*

Projeto AMA - Multinacionais e Meio Ambiente

*Revista Observatório Social nº. 13- Jan./Fev.2008 - p.37-42
http://www.observatoriosocial.org.br/portal/images/stories/publicacoes/er13.pdf

 
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